A importância da tradição oral

As fontes orais são muitas vezes as únicas fontes disponíveis para se escrever a História de Moçambique.

As fontes de tradição oral são de extrema riqueza para o auxílio e efectiva construção historiográfica de Moçambique. Nas sociedades africanas a memória oral é muito forte, muito rica e veiculada de geração em geração.

Indubitavelmente, a tradição oral é a fonte histórica mais intima, mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade.

Ki-Zerbo (dir. de), História Geral da África, Unesco, 1982, p. 29

A extrema riqueza da tradição oral para a História.

Em grande parte do continente africano, Moçambique incluido, a transmissão oral dos legados culturais é muito importante. Num continente onde a população é maioritariamente analfabeta, a tradição oral tem um papel importante. Para legarem conhecimentos às próximas gerações (literários, musicais, coreográficos, técnicos, etc.), o povo africano desenvolveu uma grande capacidade de memorização.

A boca do velho cheira mal, mas ela profere coisas boas e salutares.

A tradição oral é tudo aquilo que é transmitido pela boca e pela memória.

Provérbio africano

H. Moniot, 1982 (adaptado)

A tradição oral é como uma autobiografia das sociedades sem escrita alfabética, é constituída pelos mitos, contos, sistemas de crença, histórias e outros relatos. É, portanto, o registo da memória e o instrumento de transmissão da cultura e da história das sociedades sem escrita.

Franz Boas (adaptado)

O historiador Jacques Le Goff diferencia cinco grandes momentos distintos de conservação e transmissão da memória colectiva.

Momentos da Conservação e transmissão coletiva (Le Goff)
1.º momentomemória oral ou memória étnica, presente nas sociedades sem escrita alfabética;
2.ºmomentomemória de transição entre a oralidade e a escrita, característica do período Pré-Histórico à Antiguidade;
3.º momentomemória medieval, momento de equilíbrio entre a memória oral e a escrita;
4.º momentomemória escrita (século XVI até aos dias actuais), que predomina a partir da revolução da escrita com a mecanização e seus processos;
5.ºmomentomemória eletrónica (hoje em dia) que se organiza e nos encaminha às fontes através da informática.

Na actualidade, têm-se realizado várias pesquisas, através de trabalho de campo, cujo objectivo é recolher elementos das tradições orais pertencentes aos povos que resistiram ao processo de colonização.

Também têm surgido os centros de documentação oral criados em muitos países, cujo objectivo é conservar e desenvolver acervos visuais, sonoros e de documentação da cultura dos povos indígenas africanos.

O esforço de conservar, registar e desenvolver a história oral acontece porque ela apresenta-se para a História de Africa como uma fonte integral. Para além disso, já tem uma metodologia bem estabelecida.

Nesse âmbito devem-se destacar, entre outros, os trabalhos sobre África realizados por Jan Vansina e Ki-Zerbo.

Neste processo de recolha e registo da tradição oral, é necessário um certo grau de segurança na reconstrução da memória dessas sociedades. Portanto, o uso das informações escritas pelos cronistas requer um tratamento apropriado. O tratamento passa por submeter as fontes à crítica interna e externa e daí avaliar o grau de interferência dos cronistas na transmissão do relato indígena.

No processo da recolha de informações em que muitas vezes é feita de uma língua para a outra, a maior dificuldade é transferir a tradição oral de uma língua para outra ou de um registo para outro de forma integral sem correr o risco de cair nas omissões ou deturpações.

A tradição acomoda-se muito pouco à tradução.

Desenraizada, ela perde sua seiva e sua autenticidade, pois a língua é a “morada do ser?

Ki-Zerbo (direção), História Geral da África, Unesco, 1982, p. 29

O problema das traduções na tradição oral.

Os relatos dos viajantes são resultado de um relacionamento entre diferentes instâncias: o ver, o perceber, o interpretar, o expressar e as finalidades práticas da viagem.

Oliveira, 1980 (adaptado)

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